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18 de junho de 2008

TONICHA E AS CANTIGAS DO MEU PAÍS



Continuamos em permanente busca de material discográfico e iconográfico de Tonicha.
Hoje fomos até ao Chiado e encontrámos este single raro, de 1975. Repare-se nos títulos tão politizados... e não fosse o Verão quente no ano da publicação deste vinyl e o autor das letras o Ary.Trata-se do volume "Folclore 2" dedicado às "Cantigas do meu país" que contém 4 temas:

FACE A
SERRANA POVO
(Popular - Ary dos Santos)
COMPADRE PARTIDÁRIO
(Popular - Ary dos Santos)

FACE B
RIBEIRA CHEIA
(Popular)
BARQUEIROS DO POVO
(Popular - Ary dos Santos)

14 de junho de 2008

TONICHA: A VOZ DO MEU POVO

25 ABRIL 25 ANOS 25 CANÇÕES



No ano de 1998, a editora Strauss edita uma compilação de canções de ante e após Revolução para comemorar os 25 anos do 25 de Abril.
Para esta compilação seleccionaram duas canções a solo de Tonicha: "A voz do meu povo" de Ary dos Santos e Fernando Tordo e "Obrigado soldadinho" com letra de Ary dos Santos (sobre a música popular "Vira dos malmequeres"), e com arranjo de Pedro Osório.

A VOZ DO MEU POVO
(Letra: Ary dos Santos/Música: Fernando Tordo)

É da torre mais alta do meu pranto
Que eu canto este meu sangue
Este meu povo
Nessa torre maior em que apenas
Sou grande
Por me cantar de novo

Cantar como quem despe
A ganga da tristeza
E põe a nú a espada da saudade
Chama que nasce e cresce
E vive e morre acesa
Em plena liberdade

É da voz do meu povo uma criança
Semi-nua nas docas de Lisboa
Que eu ganho a minha voz
Caldo verde sem esperança
Laranja de humildade
Amarga lança
Até que a voz me doa

É da voz do meu povo uma traineira
Que já não pode mais andar à toa
Que acendo a minha voz
Na praça da Ribeira
A praça da canção que tem Lisboa.


in 25 ABRIL 25 ANOS 25 CANÇÕES, Strauss, 1998

Incluíram também duas canções gravadas na euforia de Abril pelo grupo INCLAVE, pela Tonicha e pelo Fernando Tordo: "Portugal Ressuscitado" ("Agora o povo unido nunca mais será vencido") e "Canção Combate" ("A Pide agora já não nos persegue/E já cá canta o Manuel Alegre").

PORTUGAL RESSUSCITADO
(Letra: Ary dos Santos/Música: Pedro Osório)

Depois da fome, da guerra
Da prisão e da tortura
Vi abrir-se a minha terra
Como um cravo de ternura

Vi nas ruas da cidade
O coração do meu povo
Gaivota da Liberdade
Voando num Tejo novo

Agora o povo unido
Nunca mais será vencido
Nunca mais será vencido

Vi nas bocas, vi nos olhos
Nos braços, nas mãos acesas
Cravos vermelhos aos molhos
Rosas livres portuguesas

Vi as portas da prisão
Abertas de par em par
Vi passar a procissão
Do meu país a cantar

Nunca mais nos curvaremos
Às armas da repressão
Somos a força que temos
A pulsar no coração

Enquanto nos mantivermos
Todos juntos lado a lado
Somos a glória de sermos
Portugal ressuscitado.

TONICHA: MULHER

MULHER
CD, POLYGRAM, 537243-2



Em 1997, Tonicha regressa às grandes canções de amor com um repertório muito cuidado quer na escolha dos poemas, quer na música e nos arranjos musicais.
Há poemas de José Gomes Ferreira, Raúl de Carvalho, Ary dos Santos, Joaquim Pessoa e António Botto. Há duas versões de canções estrangeiras: "Que mulher é esta" de Bryan Adams e "Dias de arco-íris" de Di Bari. Há ainda uma bonita homenagem em forma de canção, de Tozé Brito e António Pinho, à carreira de Tonicha: "O meu caminho".
Todas as fotografias presentes no álbum são da autoria de Jorge Nogueira.

Na contracapa do CD encontram-se as seguintes palavras de Baptista-Bastos:

A Piaf afirmava que a arte de cantar (ela dizia, de uma forma mais rigorosa: "cançonetar") tinha como matriz "um pungente apelo interior". Tonicha pertence a essa estirpe de gente que canta aqueles que nos cantaram, servindo-se de uma voz pessoalíssima e absolutamente intransmissível. Digo: inimitável. Ela possui o tal registo interior que confere aos poemas escolhidos a dimensão do tempo, a marca de uma época e o timbre de uma personalidade. Personalidade, isso mesmo. Até porque Tonicha sabe, como poucos cantores portugueses, que cantar é amar o outro; os outros. E dizer-lhes que, apesar de tudo, ainda vale a pena acreditar. Porque não há conquista sem luta nem luta sem sofrimento.
Convido-os a escutar este disco, afinal a veemência de uma declaração de amor ao outro, aos outros-a todos nós.
Baptista-Bastos in MULHER, Polygram, 1997


POEMA DE AMOR
(António Botto / Arranjo: Luís Pedro Fonseca)

Quem é que abraça o meu corpo
na penumbra do meu leito?
quem é que beija o meu rosto
quem é que morde o meu peito.

Quem é que fala da morte
docemente ao meu ouvido?
és tu senhor dos meus olhos
e sempre do meu sentido.

De saudades vou morrendo
e na morte vou pensando.
Meu amor porque partiste
sem me dizer até quando?

Na minha boca tão triste
ó alegrias, cantai
mas quem acode ao que eu digo
- Enchei-vos de água, meus olhos
enchei-vos de água, chorai.



CAVALO DE PALAVRAS
(Ary dos Santos/Joaquim Pessoa/Carlos Mendes)

Dos seixos destas mãos
Prenhes de mágoas
Dos freixos que dobravam a cintura
Dos olhos que já trouxe rasos de água
Eu fiz o meu ribeiro de ternura.

E das palavras ditas em segredo
Das coisas ciciadas pelo vento
Da minha imensa luta contra o medo
Eu fiz o meu caudal de sofrimento.

Cavalo de palavras quem me agarra
Quem aparta de mim esta saudade
Quem faz da minha voz uma guitarra
Tocada pelos dedos da verdade.

Quem é que põe a flor da madressilva
Na louca trepadeira dos meus braços
Quem pode desbravar a minha selva
De angústias e tormentos e cansaços.

E quem terá a cor da buganvília
Espreitando pelos olhos da janela
Quem pode ser a sombra de uma tília
Cheirando a alfazema e a canela.

Só tu que eu inventei mas não existes
Só tu que não sei bem se não és eu
E alegras os momentos que são tristes
E deitas o teu corpo sobre o meu.

O MEU CAMINHO
(Tozé Brito / António Pinho)

Essa voz lá de longe da minha terra
O chão que eu senti na ponta dos dedos
Contaram-me histórias
Que trazem memórias
De velhos segredos.

Esse aroma lá do sul daquele monte
A luz que vibrava e deixava um rumor
Nas arcas antigas
Papoilas em espigas
Cantigas de amor.

Fiz o meu caminho
Fui como um barquinho
Pelo mar de prata
Corpo miudinho
Alma de fragata
Fiz o meu caminho.

Fiz o meu caminho
Fui como andorinho
Pelo mundo fora
Voltarei ao ninho
Em chegando a hora.

Faço o meu caminho.

Essa Mãe toda toda oiro do trigo e do Sol
O vento a cantar na veia d'água a correr
Mulher e menina
Foi a minha sina
Meu jeito de ser.

Esse aroma lá do sul daquele monte
A luz que vibrava e deixava um rumor
Nas arcas antigas
Papoilas em espigas
Cantigas de amor.

Fiz o meu caminho
Fui como um barquinho
Pelo mundo fora
Voltarei ao ninho.

Em chegando a hora
Faço o meu caminho.



AO MENOS UMA VEZ
(Letra e música: Pedro Barroso)

Abrir a porta que dá para o rio defronte
morder um malmequer azedo p'lo caminho
regressar de ouvido ao som que estava ausente
sentir o sol na cara e o cheiro a rosmaninho
e às vezes uma ortiga
às vezes uma rosa
e às vezes uma amora
que eu mordo com saudade
estamos sempre a tempo de sermos nesta vida
ao menos uma vez
gente de verdade.

Soltar na noite aberta a fantasia
viver o sonho como quem se aquece
ao fogo de um cuidado, ao fogo de um carinho
tecer em linho puro a vida que acontece
e às vezes uma ideia,
às vezes um poema,
às vezes um olhar
que vai valer a pena
estamos sempre a tempo
de ainda descobrir
ao menos uma vez
um gesto por sentir
depois ficam amigos às vezes até tarde
quando passa o carteiro a gente diz - Bom dia!
ser português assim se querem a verdade
é nascer uma menina e os pais porem: Maria...
e às vezes encontrar
razões p'ra lá de nós
e às vasculhar
na arca dos avós
estamos sempre a tempo
de sermos nesta vida
ao menos uma vez
gente conseguida.



TERRA MÃE
(Raúl de Carvalho / Arranjo: Luís Pedro Fonseca)

Lá nos campos, tristes campos
Dos campos do Alentejo
Vim ainda pequenina
- E pequenina me vejo...

Lá nos campos, tristes campos
Da solitária planura
Nasceu a minha revolta
Nasceu a minha amargura.

Lá nos campos, tristes campos
Vem a lembrança de tudo
O que mais amo e desejo.
Vem a fome a sede e o sonho
Das terras do Alentejo.



Ó PASTOR QUE CHORAS
(José Gomes Ferreira/José Almada)

Ó pastor que choras
O teu rebanho onde está
Deita as mágoas fora
Carneiros é o que mais há

Uns de finos modos
Outros vis por desprazer
Mas carneiros todos
Com cargo de obedecer

Quem te pôs na orelha
Essas cerejas, pastor
São de cor vermelha
Vai pintá-las doutra cor

Vai pintar os frutos
As amoras e os rosais
Vai pintar de luto
As papoilas e os trigais.

QUE MULHER É ESTA
(J. Fanha/B. Adams/R. J. Lange/ N. Kamen)
Ó PASTOR QUE CHORAS
(José Gomes Ferreira/José Almada)
NA PEDRA DO TEU ANEL
(António Pinho/Carlos A. Vidal)
AO MENOS UMA VEZ
(Pedro Barroso)
FOLHINHA VERDE
(António A. Pinto/Carlos A. Vidal)
TERRA MÃE
(Raul de Carvalho/Luís Pedro Fonseca)
CAVALO DE PALAVRAS
(Ary dos Santos/Joaquim Pessoa/Carlos Mendes)
O NOSSO MENINO
(António A. Pinho/Carlos A. Vidal)
POEMA DE AMOR
(António Botto/Luís Pedro Fonseca)
DIAS DE ARCO-ÍRIS
(António J. L. Lampreia/Masini/Pintacci/Di Bari)
AVÉ MARIA
(Luís Pedro Fonseca/Schubert)
O MEU CAMINHO
(António A. Pinho/ Tozé Brito)

TONICHA: PAROLE, PAROLE

MELHOR DOS MELHORES
CD, MOVIEPLAY, MM 37021


FOTO: A confirmar

A Movieplay editou uma série dedicada aos cantores portugueses intitulada "O MELHOR DOS MELHORES", em 1994. A Tonicha coube o número 21.
Esta compilação inclui temas gravados para as editoras anteriores à Polygram. À cabeça da lista, vem a "Menina (do alto da serra)". Há temas de folclore: "Entrudo", "Olhos pretos", "Milho verde", "Passarinho trigueiro" e "Farrapeirinha", por exemplo.
Há também a canção que a Tonicha cantou nas Olimpíadas da Canção de Atenas nos anos 70, "Poema Pena" com letra de Nuno Gomes dos Santos e música de Nuno Nazareth Fernandes.
Está também no disco a canção do FESTIVAL RTP DA CANÇÃO de 1973, "A rapariga e o poeta". Há ainda outras canções de autores como Ary dos Santos, José Niza, Fernando Guerra e José Cid.



PAROLE, PAROLE
(Michaele - G. Gerrio / Versão: J. C. Ary dos Santos)

Engraçado, não sei que se passa comigo esta noite mas vejo-te como se fosse a primeira vez.
São só palavras
Sempre as palavras
Que nada dizem

Não sei como hei-de dizer-te, mas...
Só as palavras
... tu és o princípio e o fim da minha vida...
Palavras fáceis
Palavras frágeis
Que se desdizem
... meu amor de hoje, de amanhã
E contradizem
... de sempre...
Mas tudo acaba
Chegou o fim
Tudo me diz que dizes nada
Falando-me assim
És como a brisa que faz ondular os girassóis e rouba o perfume das rosas no seio do jardim.
Nem o mel
Nem as palavras doces
Às vezes não te consigo compreender...
Serão para mim
Mas podes bem dizê-las a quem chore
Os girassóis à noite no jardim
Eu deixo as palavras
À solta no vento
Perpassam por mim
Mas não ficam cá dentro.
Deixa dizer-te ainda uma palavra apenas...
Parole, parole, parole
Ouve-me...
Parole, parole, parole
Por favor...
Parole, parole, parole
Juro-te meu amor...
Parole, parole, parole, parole, parole
Apenas palavras
Lançadas ao vento.
É o meu destino falar-te, falar-te como se fosse pela primeira vez...
São só palavras
Sempre as palavras
Que repetias
Como eu gostava que me compreendesses...
Palavras sós
Que me ouvisses ao menos uma vez...
Palavras lindas
Palavras ocas
Que se soam falso.
Tu és o meu sonho proíbido...
Me fazem dó
A minha única razão, a minha última esperança...
Ninguém te cala
Na tua boca
Só a mentira é que me fala
Ai, deixa-me só.
A tua voz é a única música que faz dançar as estrelas no espaço...
Nem o mel
Nem as palavras doces

Se tu não existisses eu inventava-te, meu amor...
Serão para mim
Mas podes bem dizê-las a quem oiça
Os rouchinóis à noite no jardim
Eu deixo as palavras à solta no vento
Perpassam por mim
Mas não ficam cá dentro.

Deixa dizer-te ainda uma palavra só...
Parole, parole, parole
Ouve-me...
Parole, parole, parole
Por favor...
Parole, parole, parole
Juro-te meu amor...
Parole, parole, parole, parole, parole
Apenas palavras
E leva-as o vento.
És linda...
Parole, parole, parole
És linda...
Parole, parole, parole
És linda...
Parole, parole, parole, parole, parole
Apenas palavras
E leva-as o vento.




TONICHA: CANÇÃO DO CIGANO

O REGRESSO
CD, POLYGRAM (POLYDOR), 519722 2



Após alguns anos de afastamento, Tonicha regressa às canções e aos discos.
Agora, já na era do CD, edita "REGRESSO", em 1993, disco composto por 14 temas de cariz popular rebuscando algumas canções de glórias passadas como "O cavaquinho", "Canção do cigano" e "Mariana".
Apresenta também temas inéditos como "Minha terra de Agosto desejado" (letra do marido, João Maria Viegas, e música de Luís Pedro Fonseca), "O que é eu faço" (letra de João Maria Viegas e música de Nuno Nazareth Fernandes), "O mercado" (letra de Ary dos Santos e música de Nuno Nazareth Fernandes) e "Ao domingo" (letra de Joaquim Pessoa e música de Fernando Tordo).
Conforme se pode ler no folheto do CD, as canções "Minha terra de Agosto desejado" e "O que é eu faço" são dedicadas ao emigrante português.
Reaparece na televisão em dois programas de grande audiência: na RTP, no "Parabéns" do Herman José e, na SIC, em "Falas tu ou falo eu" de Fernando Tordo e Carlos Mendes.



CANÇÃO DO CIGANO
(Letra: Vasco de Macedo/Música: Frederico de Brito)

Pelas raias de Espanha nas sombras da noite
Passava um cigano no seu alazão
O vento brandia seu nórdico açoite
As folhas rangiam caídas no chão.

E já embrenhado no alto Alentejo
Nas sombras da noite tingidas de breu
Nem mais uma praga nem mais um desejo
Aos ecos distantes o pobre gemeu.

Não há maior desengano
Nem vida que dê mais pena
Do que a vida de um cigano
Atravessar a fronteira
Para ser atravessado
Por uma bala certeira
E tudo porque o destino
Só fez dele um peregrino
Companheiro do luar
Um pobre judeu errante
Que não tem pátria nem lar.

E o contrabandista temido e valente
Voltava de Espanha no seu alazão
Um tiro certeiro e o braço dormente
E um rasto de sangue marcado no chão.

E já embrenhado no alto Alentejo
Nas sombras da noite tingidas de breu
Nem mais uma praga nem mais um desejo
Aos ecos distantes o pobre gemeu.

Não há maior desengano
Nem vida que dê mais pena
Do que a vida de um cigano
Atravessar a fronteira
Para ser atravessado
Por uma bala certeira
E tudo porque o destino
Só fez dele um peregrino
Companheiro do luar
Um pobre judeu errante
Que não tem pátria nem lar.



CHULA
(Letra: João Maria Viegas / Música: Rão Kyao)

Cantigas de portugueses
Lembram gaivotas no ar
Voando por entre as ondas
Trocando as voltas ao vento
Com medo de naufragar.

A cantar me fiz mulher
Fiz da vida uma cantiga
Cantigas leva-as o vento
O vento levou-me todos
Os sonhos de rapariga.

Fui ao mar pra ver as ondas
O mar gemia de dor
Trazia prantos e mágoas
Eram marés que mandavam
Saudades do meu amor.

Adeus ó vareira chula
Ó minha velha canção
Vens das terras de Galiza
Trazes notícias de Espanha
Com sabor a tradição.


FOTOS: Vasconcellos e Sá / DESIGN GRÁFICO: Álvaro Reis

MINHA TERRA DE AGOSTO DESEJADO
(Letra: João Maria Viegas / Música: Luís Pedro Fonseca)

Meu amor, minha terra, meu país
Meu fruto saboroso na distância
Meu quintal semeado de alecrim
Que enfeitaste de ilusões a minha infância

Minha terra de Agosto desejado
Minha pipa de vinho morangueiro
Minha noiva de Viana, meu brocado
Meu jardim, meu recanto e meu canteiro

Esta saudade que mata
Este bem querer que perdura
Daquele luar de prata
Que revejo na lonjura

Este destino fadista
Que marcou o meu passado
Por sonhos e palavras ditas
Nos versos do nosso fado

Meu país de fados magoados
Que guitarras entoam noite fora
Misturando nos acordes e trinados
Saudades da família que lá mora

Minha aldeia dos pares de namorados
Que ao domingo se passeiam pela rua
E que à noite se entregam, abraçados
Jogando às escondidas com a lua.

TONICHA: MINHA MÃE, MINHA MÃE

CANTIGAS POPULARES

CANTIGAS POPULARES, de 1976, é o resultado de, talvez, uma das mais interessantes parcerias da música portuguesa, esta que uniu Tonicha ao então ainda pouco conhecido Jorge Palma que, já em meados dos idos anos 70, com a Direcção Musical do álbum da cantora alentejana indiciava o talento e a mestria na arte da música que hoje se lhe (re)conhece.



Tonicha regressa ao folclore com uma nova série de discos dedicados às cantigas do nosso país. O álbum "CANTIGAS POPULARES" (da Orfeu/Arnaldo Trindade e Cª), com arranjos e uma brilhante Direcção Musical de Jorge Palma, com produção e selecção musical de João Viegas, é editado no ano de 1976.

Deste álbum foram lançados os EP seguintes:

CANTIGAS POPULARES 1
EP, ORFEU, ATEP 6698



MINHA MÃE, MINHA MÃE
(Popular/Arranjo e Direcção Musical: Jorge Palma)

Minha mãe, minha mãe
ó minha mãe minha amada
quem tem uma mãe tem tudo
quem não tem mãe não tem nada.

Eu cheguei e embarquei no comboio
que soprava pela linha
e ás vezes penso comigo e digo:
- Triste sorte que é a minha.

Depois de chegar ao Barreiro
embarquei no vapor que passa o Tejo
Chora por mim, que eu choro por ti
Já deixei o Alentejo.
Chora por mim, que eu choro por ti
Já deixei o Alentejo.

Minha mãe, minha mãe
por Deus não me peça nada
Vale-me Tu nesta hora
que eu p'ra aqui estou desprezada.



ENTRUDO
(Popular/Arranjo e Direcção Musical: Jorge Palma)

Ó entrudo, ó entrudo
ó entrudo chocalheiro
que não deixas assentar
as mocinhas ao soalheiro.

Eu quero ir para o monte
eu quero ir para o monte
que no monte é que estou bem
que no monte é que estou bem.

Eu quero ir para o monte
eu quero ir para o monte
onde não veja ninguém
que no monte é que estou bem.

Estas casas são caiadas
estas casas são caiadas
quem seria a caiadeira
quem seria a caiadeira.

Foi o noivo mais a noiva
foi o noivo mais a noiva
com um ramo de laranjeira
quem seria a caiadeira.

CANTIGAS POPULARES 2
EP, ORFEU, ATEP 6699



ROSEIRA BRAVA
(A. Ferreira Guedes/José Niza)

Roseira brava, roseira
Barco sem leme nem remos
Roseira brava é a vida
Que amargamente vivemos.

Roseira brava não tem
Rosas abertas nos ramos
Roseira brava é espinho
Que em nosso peito cravamos.

Roseira brava, roseira
Rosa em botão desfolhada
Roseira brava é teu rosto
Rompendo da madrugada.

Roseira brava no vento
Vai espalhando a semente
Roseira brava é lembrar
Quem se não lembra da gente.

Roseira brava, roseira
Que o sol de Verão não aquece
Roseira brava é o amor
A quem amor não merece.

Roseira brava é o ódio
Que vai minando a raiz
Roseira brava, roseira
Roseira do meu país.

Roseira brava é o ódio
Roseira do meu país.



CHARAMBA
(Letra e música: Popular - Ilha Terceira)
(Arranjo e Direcção Musical: Jorge Palma)

Das modas da minha terra, da minha terra
A Charamba é a primeira.
Das modas da minha terra, da minha terra
A Charamba é a primeira.

Vou começar por cantá-la, ai por cantá-la
Lembrando a Ilha Terceira.
Vou começar por cantá-la, ai por cantá-la
Lembrando a Ilha Terceira

Boas noites meus senhores, senhoras e belas flores
Que aqui estais neste salão.
Boas noites meus senhores, senhoras e belas flores
Que aqui estais neste salão.

Para vós eu vou cantar, e a todos quero saudar
Do fundo do coração.
Para vós eu vou cantar, e a todos quero saudar
Do fundo do coração.

CANTIGAS POPULARES 3
EP, ORFEU, ATEP 6700



OLHOS PRETOS
(Popular/Arranjo e Direcção Musical: Jorge Palma)

Olhos pretos
pretos pretos
são gentis
são gentios da Guiné.

Ai da Guiné por serem pretos
gentios por não terem fé.

Olhos pretos
são brilhantes
semelhantes
aos luzeiros que o céu tem.

Uns olhos pretos
eu preferi
e nunca vi
de cor mais linda ninguém.

Olhos pretos
são brilhantes
semelhantes
aos luzeiros que o céu tem.



MENINA FLORENTINA
(Popular/Arranjo e Direcção Musical: Jorge Palma)

Ó menina Florentina
é do peito o coração, menina
seu amante delirante
de viagem chegou neste instante.

REFRÃO
Já cá está tiro-liro-liro-lé
Já cá está tito-liro-liro-ló
Já cá está tiro-liro ó amor
Tiro-liro abre a porta, ó branca flor.

Adormecei num jardim
a cheirar a branca flor
acordei e vi-me presa
nos braços do meu amor.

REFRÃO

Quando te não conhecia
Nada de ti se me dava
sem pensamentos dormia
sem cuidados acordava.

REFRÃO

O MENINO
SINGLE, POLYDOR, 2063 015



Entretanto Tonicha muda de editora e passa a ver as suas canções editadas pela Polydor, mais tarde tornada Polygram.
Em 1976, grava o disco "O Menino", com letra de José Carlos Ary dos Santos e música de Tozé Brito. No lado B, canta "Um grande amor" dos mesmos autores.

O MENINO
(J. C. Ary dos Santos / Tozé Brito)

Primeiro fui namorada
E depois mulher feliz
Foi por eu ter sido amada
Que um dia deitei raíz.

Raíz com braços e riso
Com olhos cheios de brilho
Para ser mãe é preciso
Gostar de fazer um filho.

O menino já salta à corda
Joga à bola num jardim
É tão lindo o mais lindo de todos
Porque andou dentro de mim.

O menino já vai à escola
Decora depressa e bem
Ele aprende a tornar-se um homem
E eu aprendo a ser mãe.

Não há no mundo outro amor
Tão imenso e tão profundo
Ser mãe é como dar flor
Pôr uma rosa no mundo.

A rosa que vai crescendo
Folha a folha espinho a espinho
A rosa que vai vivendo
No canteiro do carinho.



MARCHA DA MOURARIA
SINGLE, POLYDOR, 2063 022

Embora ao longo da sua carreira Tonicha tenha sempre feito o possível por não cantar temas de outros colegas cantores (pois sempre quis demarcar-se e construir o seu próprio repertório), gravou a "Marcha da Mouraria" (gravada e cantada por várias cantoras, talvez a mais conhecida seja a gravação deixada por Amália Rodrigues) e a "Marcha de Benfica", também para editora Polydor.



MARCHA da MOURARIA
(Raúl Ferrão / Frederico de Brito)

Mouraria garrida
Muito sacudida
Muito requebrada
Com seu tom de galdério
De moira encantada
É como um livro de novela
Onde o amor é tudo
E o ciúme impera
Ao abrir duma janela
Aparece o vulto daquela severa.
A marcha da Mouraria
Tem o seu quê de bairrista
Certos laivos de alegria
É a mais boémia
É a mais fadista.
Anda toda engraçada
De saia engomada
Blusinha de chita
É franzina pequena
Gaiata morena
Cigana bonita
Tem a guitarra p'ra gemer
Um amor submisso
Que nunca atraiçoa
Este bairro deve ser
'Inda o mais castiço
Da nossa Lisboa.



TU ÉS O ZÉ QUE FUMAS
SINGLE, POLYDOR, 2063 027

Em 1977, ainda pela editora Polydor (Phonogram), grava "Tu És o Zé Que Fumas".
O tema acabou por tornar-se um dos maiores êxitos populares da cantora, estando ainda hoje muito viva no imaginário popular português a interpretação muito característica de Tonicha.
No lado B do single aparece o tema "Cana Verde".




Tu és o Zé que fumas
(Popular / Arranjo: J. Libório)

Tu és o Zé que fumas
Tu és o fumador
Tu és o mariquinhas
Tu és o meu amor.

Ó lua vai-te deitar
Ai no quarto do meu amado
Ai dai-lhe beijinhos por mim
Ai se ele estiver acordado.

Já te dei o coração
Ai coisa que dar não podia
Já te dei a melhor prenda
Que no meu peito trazia.

Ó meu amor, meu amor
Ai ó meu amor, meu enleio
Quando comecei a amar-te
Tinha dez anos e meio.

Tenho corrido mil terras
Aldeias mais de quarenta
Tenho visto caras lindas
Só a tua me contenta.

TONICHA NO TEATRO DE REVISTA

UMA NO CRAVO OUTRA NA DITADURA

Após o 25 de Abril, Tonicha, juntamente com o marido, João Maria Viegas, funda a editora Discófilo. O casal viria posteriormente a oferecer uma quota da editora a José Carlos Ary dos Santos.
Foi nesta editora que Tonicha gravou um álbum histórico, "CANÇÕES DE ABRIL" (que, infelizmente e para tristeza e perda dos muitos seguidores da carreira da cantora, nunca foi reeditado) e um outro, "CANTIGAS DO MEU PAÍS", com raízes no folclore português e letras de Ary dos Santos, revelando um forte pendor político. São editados ainda os singles "Cantaremos/Lutaremos", "Cravos da madrugada" e "Terras de Garcia Lorca".



Em 1974, Tonicha participa na revista "UMA NO CRAVO, OUTRA NA DITADURA" no Teatro ABC, no Parque Mayer, onde canta canções de José Carlos Ary dos Santos e de Fernando Tordo. A participação neste espectáculo teve direito a uma capa e a um artigo na Revista Gente, Nº 50, de Outubro de 1974.



TONICHA: FESTIVAL RTP DA CANÇÃO 1973

A RAPARIGA E O POETA
EP, ORFEU, ATEP 6467

A terceira passagem de Tonicha pelo FESTIVAL RTP DA CANÇÃO aconteceu no ano de 1973.
O tema que a cantora defendeu foi "A Rapariga e o Poeta" que, apesar de ser uma canção com um bom texto e uma música forte, acabou por ficar-se pelo penúltimo lugar. Esse foi um Festival muito disputado e que teve como grande favorito Fernando Tordo (que defendeu a canção "Tourada" escrita por Ary).


1973, FESTIVAL RTP DA CANÇÃO, Lisboa


A canção é da autoria de José Niza e José Calvário. Foi editado em disco num EP da editora Orfeu chamado precisamente "A rapariga e o poeta". Na capa apresenta-nos uma bela fotografia de Tonicha da autoria do fotógrafo Álvaro João (que viria a ser responsável por muitas das fotografias dos discos da cantora).

O tema foi reeditado pela Movieplay em 1994 na colecção "O MELHOR DOS MELHORES", como parte integrante de alguns dos temas mais emblemáticos de Tonicha, que também inclui uma das canções da face B do EP de 1973, "Rosa, Rosae" com letra do poeta Ary dos Santos.
"A rapariga e o poeta" faz também parte do alinhamento do CD lançado pela Movieplay no ano 2000 "CLÁSSICOS DA RENASCENÇA", no número 82 (dedicado a Tonicha).
O excelente "Com um cravo na boca", com uma letra pujante de Ary dos Santos e uma música muitíssimo bem conseguida de Jorge Palma (a emprestar a sonoridade "épica" que os versos de Ary sugerem) e "Contraluz" foram incluídos na "ANTOLOGIA 1971-1977" que a Movieplay (detentora dos direitos das canções) lançou em 2004.



FACE A:
A RAPARIGA E O POETA
(Letra: José Niza/Música: José Calvário)
COM UM CRAVO NA BOCA
(Letra: Ary dos Santos/Música: Jorge Palma)

FACE B:
CONTRALUZ
(Letra: José Niza/Música: José Calvário)
ROSA, ROSAE
(Letra: Ary dos Santos/Música: João Henrique).



A RAPARIGA E O POETA
(José Niza/José Calvário)

Poeta amigo
Parto contigo
Nosso degredo
Fica em segredo.
Adeus ao mundo!...
Venham cantores
Descobrir a ilha dos amores!
Sofreste o livro
De um povo ao vivo!
Viveste à sorte
Sorriste à morte!
Brigaste vidas
Calaste dores
Mas nunca temeste adamastores!
História ao contar,
Mundo a correr;
Mulheres a amar,
A esquecer, a encontrar,
A perder, a inventar!
Fúrias de mar,
Gestos de amor;
Beber, lutar,
Com quem for;
Naufragar, renascer
E a cantar!
Sofreste o livro
De um povo ao vivo!
Viveste à sorte
Sorriste à morte!
Brigaste vidas,
Calaste dores,
Mas nunca temeste adamastores!

Oiça a canção "A rapariga e o poeta" no YouTube:
http://br.youtube.com/watch?v=eSLTZ6ngRyA

No ano de 1973 o vencedor do FESTIVAL RTP DA CANÇÃO foi Fernando Tordo, com o tema "Tourada".

TONICHA: CANTA PATXI ANDIÓN

AS CANÇÕES DE Patxi Andión

Em 1972 grava canções (em espanhol e em português) de Patxi Andión.
As versões em português ficaram a cargo de Ary dos Santos.
São editados discos em Portugal e em Espanha.



FOTO CAPA: M. Fiuza

ARY E A MENINA

DO ALTO DA SERRA


FOTO: in José Carlos Ary do Santos, Obra Poética. Lisboa: Ed. Avante, 1994

Tonicha conhece entretanto o poeta José Carlos Ary dos Santos através do compositor Nuno Nazareth Fernandes. Os dois serão os autores de "Menina" (Letra: Ary dos santos / Música: Nuno Nazareth Fernandes) que venceu o Festival RTP da Canção de 1971.




Veja o vídeo do Festival RTP da canção 1971 no YouTube:
http://br.youtube.com/watch?v=6D_oHtr7KGk
(escolha a opção "assistir em alta qualidade")

Ana Maria Lucas entregou o prémio aos autores da canção, José Carlos Ary dos Santos e Nuno Nazareth Fernandes:



O tema "Menina" representou Portugal no Festival da Eurovisão em Dublin, arrecadando um 9º lugar, o melhor resultado obtido até essa altura pelo nosso país.
Com a passagem pelo Eurofestival, Tonicha teve oportunidade de estabelecer os contactos internacionais, que lhe permitiram ver o disco editado em versões francesa, italiana, espanhola e inglesa.

Seguem as imagens do ensaio e da actuação em Dublin, respectivamente.














Senhoras e senhores..."Menina do Alto da Serra", com letra de José Carlos Ary dos Santos" e música de Nuno Nazareth Fernandes...para interpretar: Tonicha!

Festival da Eurovisão em Dublin (1971) no YouYube:
http://br.youtube.com/watch?v=Yi37ynXvvQw&feature=related


Menina de olhar sereno
Raiando pela manhã
De seio duro e pequeno
Num coletinho de lã
Menina cheirando a feno
Casado com hortelã
Menina que no caminho
Vais pisando formosura
Trazes nos olhos um ninho
Todo em penas de ternura
Menina de andar de linho
Com um ribeiro à cintura
Menina de saia aos folhos
Quem na vê fica lavado
Água da sede dos olhos
Pão que não foi amassado
Menina do riso aos molhos
Minha seiva de pinheiro
Menina de saia aos folhos
Alfazema sem canteiro
Menina de corpo inteiro
Com tranças de madrugada
Que se levanta primeiro
Do que a terra alvoroçada
Menina de fato novo
Ave-maria da terra
Rosa brava rosa povo
Brisa do alto da serra.



Chegada de Dublin, Tonicha foi recebida no aeroporto da Portela por uma multidão de fãs.



"Menina do Alto da Serra" teve direito à gravação de um videoclip. Aqui seguem algumas imagens desse vídeo, realizado por Augusto Cabrita e gravado no Castelo de São Jorge...



Veja imagens do vídeo no YouTube:
http://br.youtube.com/watch?v=mjhH5pERb2c